terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Carta ao filho que já nasceu

Por Viviane Sansperi, em 21 de agosto de 2014

Ian, meu filho. Da última vez que lhe escrevi você ainda estava dentro de mim. E hoje venho lhe escrever mais uma vez, desta vez, p...ara lhe pedir desculpas.
Sabe aquela mãe com comida perfeita e casa impecável? Sabe aquela mãe que passa todo o tempo que está com você (no caso 24 horas) 100% presente? Sabe a mãe que nunca sentiu raiva do filho? Filho, eu não sou esta mãe. Desculpe.
Você sem dúvida é o ser mais importante da minha vida. Mas hoje, fiquei imensamente triste em perceber o quão a maternidade é algo tão desafiador e coloca todas as minhas experiências profissionais e pessoais, que foram muitas no decorrer de uma vida, no chinelo.
Eu fiz escolhas arriscadas e pago com a descrença e até com o preconceito alheio: tive um parto natural humanizado, controlo sua alimentação comprando frutas e legumes orgânicos e preparando todas as suas refeições. Você não come chocolate, não toma refrigerante, e não se alimenta de nada que tenha leite (fruto da alergia que você adquiriu na UTI porque apesar de poder amamentá-lo, o hospital achou mais conveniente te dar leite artificial). E isso me faz uma mãe melhor, mais dedicada e especial? Não. Eu só sigo minhas convicções de acordo com minha personalidade “rebelde” como muitos me classificam.
Também durmo com você em minha cama, ainda te dou peito, ando com você no sling e se alguma outra criança de alguma forma puxar seu cabelo ou lhe bater, eu estarei ali para um abraço, ainda que eu saiba que você precisa aprender a se defender; você tem a vida inteira pela frente, mas eu também acredito que é te dando segurança que você vai se sentir seguro para amorosamente reagir aos contratempos (mentira, na realidade dependendo do tamanho da criança, eu mando você puxar o cabelo dela também!) Pois é, como eu disse... rebelde.
Mas vamos ao ponto crucial desta carta:
Eu não sou perfeita!
Quando você chora desesperadamente e eu já fiz tudo que estava ao meu alcance, eu me desespero e tenho raiva. De mim, da situação e de você também. E olha que saco! Como eu posso sentir raiva da pessoa que eu mais amo? Também já torci para que você dormisse rápido para eu poder ter um tempo só meu nem que seja para me entupir de todas aquelas coisas que eu não deixo você comer, olha que canalha!!!
Já desanimei quando você acordou no meio de um filme que estava assistindo e até já quis me trancar no banheiro sozinha... longe de ser aquela mãe perfeita...
O que eu quero que você saiba, é que embora a maternidade muda tudo na vida da gente, eu era uma pessoa antes de você existir, e ela ainda existe. Eu não me tornei santa por ter virado mãe. Meus desejos, sonhos e defeitos continuam todos aqui mas só que agora, com holofotes imensos que vêm dos seus lindos olhos atentos! Ser mãe é um desafio constante mas ninguém nunca me falou isto!
Eu quero que você saiba que vou te dizer muitos nãos e que você vai ter muita raiva de mim também. Aceite. Se você crescer fingindo que não sente raiva, vai viver numa mentira tão grande que um belo dia vai descobrir que não sabe quem você é.
Eu menti a vida inteira! Sempre fui a amiga da filha que tira boas notas. Não brigava, não respondia e embora contestasse o que estava ao meu redor, sempre me rendi, por um desejo infantil de aceitação. Quase perdi minha essência... aí veio você.
E agora que eu me encontro no centro do palco com estes holofotes brilhantes na minha direção, descobri que minha rebeldia, aquela super criticada, tem outro nome, chama-se RESPONSABILIDADE.

Te amo mais que tudo, mas entenda que sua mãe, continua sendo humana

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