terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Sobre diferenças, trissomia e tolerância

O mês de março passou a ser de muita emoção e desafios desde 2011. Foi nele que iniciei minha vida em Brasília, iniciei minha jornada como mãe e nele também se comemora o dia da síndrome de down. Você sabe porque o dia da síndrome de down é comemorada em 21/03? Porque temos pares cromossômicos no nosso DNA e o par 21, no caso de um down , não é um par, mas um trio.
Preciso confessar secretamente que SEMPRE ficava olhando para pessoas com síndrome de down! SEMPRE! Tinha vergonha porque me fascinava, eu queria conversar, queria fazer amizade... e ficava pensando se havia algum preconceito nesta minha atitude... e desta forma dava um sorrisinho amarelo (como é o politicamente correto) e me distanciava.
Hoje, como mãe do Nill, percebo o fascínio que ele exerce. “Eles são TÃÃÃÃÃÃÃo amorosos, né?” Né não. Eu não conheço “eles”, mas os MEUS FILHOS são, hehehehe!
Somos TODOS preconceituosos! Eu, você, sua avó e se bobear, até seu cachorro. Parta deste princípio!
Eu julgo o negro. Julgo a loira toda maquiada e produzida. Julgo o deficiente. Julgo os que comem carne e os que não comem. Julgo o colega de esquerda e o de direita. Julgo a religião x, y, zeta! Julgo, julgo, julgo. Porque eu sou MUITO melhor que o resto do mundo! Aliás, porque estou neste mundo? Preconceito, é uma ideia pré-concebida. E ideia pré-concebida é julgar a parte pelo todo. Sim, porque você pode ter conhecido um down que era agressivo e daí você pensa “todos são agressivos!” ou você pode tê-lo visto agressivo uma vez porque o cachorrinho dele morreu e ele não queria conversar. Pior, você julga porque “a tia do primo do vizinho da amiga da enteada da sua professora disse que “eles” são agressivos porque um dia...
Uma de minhas melhores amigas, a Elisa, é evangélica. Eu sou espírita. Ela brigou com o médico para fazer uma cesárea – eu tive parto normal e em casa (ok, sou índia, amiga! kkkkk)! Nunca encontrei alguém que tivesse tanto a ver comigo quanto ela! Já sentamos em baixo de árvore no meio do expediente (escondidas) para comer amora em plena Marginal Pinheiros. Já discutimos, já brigamos e já almoçamos no espaço de 1 hora. Nunca precisamos pensar igual e concordar em tudo para sermos amigas. A Elisa sempre me respeitou e vice-versa, mesmo não concordando.
Eu posso criar um mundo particular com pessoas que fazem e pensam exatamente igual a mim: sejam da minha religião, tenham minha visão política, ideológica, comam orgânicos... O máximo que vou conseguir é me enganar a respeito do que as pessoas pensam e de como elas são. Porque a gente MENTE para ser aceito.
É chato ser excluído. É ruim não fazer parte de nada. Tente discordar numa roda de amigos a respeito de qualquer assunto. Se você tiver muita coragem de se manifestar, vai receber uma enxurrada de críticas e até ofensas pessoais dos seus “amigos”! Se você estiver na posição contrária, dentro da maioria, provavelmente por força do grupo, vai automaticamente excluir, menosprezando e ridicularizando o outro.
Sou super a favor das discussões! Já discordei mesmo concordando, só para discutir (mãe, você estava certa sobre mim). Terminou a discussão, vamos tomar um café!
Nós não somos unilaterais e não temos que ser! Já falei muita besteira. Já fiz comentários desnecessários e já dei pitacos na vida alheia sem ser solicitada. Já me posicionei contra, a favor e muito pelo contrário.
Sempre fui julgada. E aceito que já errei, já acertei e que sou humana.
Dê uma chance às pessoas! Se abra para conhecer ao invés de se isolar com os seus “iguais”.
A propósito, depois que o Nill nasceu eu finalmente consegui ser amiga de alguns downs!
P.S.: a sua curiosidade é bem vinda para mim! Não tenha medo de me perguntar algo a respeito da síndrome de down. Eu lido bem com a curiosidade alheia. Pergunte ao invés de trazer consolo contando do caso de fulano que é down e ATÉ trabalha... Só a título de curiosidade, tem down que dirige, fez pós graduação, dá palestra... então relaxa! Pode ser que no futuro, o médico do seu filho seja down!
P.S.2: Aproveite a oportunidade de saber por quem convive diariamente, mas tenha em mente que eu só posso falar a respeito do MEU filho. Cada criança é de um jeito e cada mãe/pai, idem.
P.S.3: Se você leu o primeiro PS e pensou: “tadinha, ela se ilude! O down é deficiente intelectual, jamais será médico!”, perceba como você é preconceituoso(a)! Não é porque não existiu, que não existirá! Não faz muito tempo, era impossível voar...

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