domingo, 24 de março de 2019

A Culpa é de Quem?

Por Viviane Sansperi

Crianças e jovens conectados vinte e quatro horas por dia. Jogos de videogame que incitam violência. Governo corrupto. Dinheiro acima de tudo. Escolas em tempo integral, pais que trabalham muito e não tem tempo para os filhos. Preconceito. Mães. A culpa com certeza pertence a elas!

Estas foram algumas das justificativas que tenho lido e escutado nos últimos dias(algumas, entrelinhas) em decorrência à série de manifestações de violência causadas por pessoas frias (psicopatas?) que não sentem nada ao verem a dor do semelhante.

Continuo insistindo (quem já leu meus textos sabe) que a maioria de nós divide o mundo entre “os bons” e “os maus”. Se votou neste cara, é mau. Se votou no outro, é bom. Se tem uma determinada aparência e age de acordo ou contra o que NÓS achamos importante, automaticamente classificamos aquela pessoa entre boa ou má, ainda que o “má” possa ser somente alguém a quem não damos a honra de conviver conosco, que somos bons.

Aí acontece uma tragédia.

E a gente vai distribuindo culpas por aí, tentando uma justificativa para aquilo.

Se trocássemos a palavra “culpa” por “responsabilidade”?

De quem é a responsabilidade? Do jogo de videogame? Da mãe, que tem que fazer hora extra no trabalho e não tem tempo de ficar com o filho? Do pai, que não compartilha com a mãe as responsabilidades? Da sociedade consumista que exige que trabalhemos cada vez mais? Da situação de miséria a que muitos são expostos? Do governo?

A menos que vivamos isolados no Monte Everest, TODOS nós somos responsáveis por TODOS nós! Você pode até não gostar de alguém, mas você tem responsabilidade com esta pessoa como ela também tem com você.

E quando a gente entende a responsabilidade como recíproca, não estamos elegendo nenhuma das polaridades como “salvadora” e a outra como “o pobre coitado que precisa de ajuda”. TODOS precisamos ajudar e TODOS precisamos de ajuda. Não há polaridade. Não há bom e mau.

Mas os psicopatas são maus, certo? O cara que rouba merenda de criança para passar Natal em Nova Iorque não pode ser considerado bom, não é?

Ele não se comove com o sofrimento alheio assim como nós que achamos barato gastar R$ 1000,00 por mês com roupas, supérfluos e diversões, mas achamos cara uma cesta básica a R$ 352,00 e não temos coragem de tirar um terço do valor de nossos supérfluos para matar a fome de uma família inteira.

A intenção não é deixar ninguém culpado por aqui, nem chamar ninguém de psicopata por não se incomodar com a “miséria” alheia (e eu não falo só de dinheiro). É só nos fazer refletir sobre o grau de frieza que temos, que nos impede de olhar para os semelhantes com compaixão. Porque todos são semelhantes mas achamos uns mais semelhantes que outros, não é?

Antes de julgarmos, nos avaliemos. Antes de gastar nossos neurônios para tentar identificar culpados, vamos utilizá-los para pensar de que forma podemos evitar no nosso dia-a-dia mais manifestações de ódio, loucura ou indiferença.

Por último e mais importante: não julguem os pais Tenho certeza de que os pais de um criminoso carregarão certamente a maior dor.

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